domingo, 11 de outubro de 2009

O Campo

Caminhando pelo campo é comum deparar-se com diversas flores, contudo nenhuma chama tanta atenção como a rosa, crescendo sozinha acima das outras rubra incandescente. Todos são enganados pelo seu afrodisíaco aroma. As outras flores veem indignadas aquela vermelhidão, como o sangue que corre nas veias dos Homens. Homens que as pisoteiam sem lhes olhar nem de soslaio. Tentam, inutilmente, tornar suas cores e aromas em superlativos: azulíssimo, azedíssimo, amarelíssimo, docíssimo... Tristíssimas tentativas.

Resolutas as pernas caminham até a rosa belíssima. Ali parados, os olhos ressecados apreciam: as pétalas vermelhas sobrepostas uma ao lado da outra, umidecidas pelo orvalho, o orifício apertado no meio, os espinhos eretos e rijos. Indescritível é a sensação diante do objeto de desejo. As mãos tocam as pétalas molhadas e são penetradas pelos grandes espinhos. O sangue escorre para dentro do orifício negro. A boca solta um suspiro longo e dolorido. A rosa cobrou seu preço pelo oferecido, mas o corpo não se satisfaz. De súbito, mãos agarram o caule e puxam com brutal violência. As raízes se desprendem do solo, tentando agarrar cada grão de terra. O sangue escorre pela rosa, pelas mãos. As pernas caminham para longe dali, no entanto antes de alcançar o descampado o corpo não sente o suspiro, não sente a dor. A rosa secou, o sangue todo escorrera, agora estava branca, preta. As mãos soltaram e com um baque surdo a rosa caiu no solo.


As flores olhavam de cima para baixo, reparando a secura que outrora foi o esplendor do campo. Ali assistiram o risco da indiferença, do desejo, da vontade. Sem raízes nada somos. Os olhos, as pernas, as mãos, o corpo não se satisfazem, rapidamente almejam, possuem e destroem. Porém de que vale nossas cores e aromas se não pudermos ser tocadas e bebermos do sangue dos Homens. A rosa teve o que nenhuma de nós jamais terá. Logo crescerá outra, única como sempre, acima de nós, pois nesse campo de aromas e cores tão diferentes tornamo-nos homogêneas.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Sonho

A vida é similar a um sonho, a grande diferença é que se pode acordar de um sonho ruim. Será possível acordar de uma vida ruim? Caso acontecesse, aonde acordaríamos? Acredito que acordar da vida seria morrer, pois como tudo se completa e os opostos se atraem, faria sentido que, ao invés, de abrir os olhos; os fechássemos para acordar. Que mundo maravilhoso seria, se fechássemos os olhos para viver e os abríssemos para sonhar.