Caminhando pelo campo é comum deparar-se com diversas flores, contudo nenhuma chama tanta atenção como a rosa, crescendo sozinha acima das outras rubra incandescente. Todos são enganados pelo seu afrodisíaco aroma. As outras flores veem indignadas aquela vermelhidão, como o sangue que corre nas veias dos Homens. Homens que as pisoteiam sem lhes olhar nem de soslaio. Tentam, inutilmente, tornar suas cores e aromas em superlativos: azulíssimo, azedíssimo, amarelíssimo, docíssimo... Tristíssimas tentativas.
Resolutas as pernas caminham até a rosa belíssima. Ali parados, os olhos ressecados apreciam: as pétalas vermelhas sobrepostas uma ao lado da outra, umidecidas pelo orvalho, o orifício apertado no meio, os espinhos eretos e rijos. Indescritível é a sensação diante do objeto de desejo. As mãos tocam as pétalas molhadas e são penetradas pelos grandes espinhos. O sangue escorre para dentro do orifício negro. A boca solta um suspiro longo e dolorido. A rosa cobrou seu preço pelo oferecido, mas o corpo não se satisfaz. De súbito, mãos agarram o caule e puxam com brutal violência. As raízes se desprendem do solo, tentando agarrar cada grão de terra. O sangue escorre pela rosa, pelas mãos. As pernas caminham para longe dali, no entanto antes de alcançar o descampado o corpo não sente o suspiro, não sente a dor. A rosa secou, o sangue todo escorrera, agora estava branca, preta. As mãos soltaram e com um baque surdo a rosa caiu no solo.
As flores olhavam de cima para baixo, reparando a secura que outrora foi o esplendor do campo. Ali assistiram o risco da indiferença, do desejo, da vontade. Sem raízes nada somos. Os olhos, as pernas, as mãos, o corpo não se satisfazem, rapidamente almejam, possuem e destroem. Porém de que vale nossas cores e aromas se não pudermos ser tocadas e bebermos do sangue dos Homens. A rosa teve o que nenhuma de nós jamais terá. Logo crescerá outra, única como sempre, acima de nós, pois nesse campo de aromas e cores tão diferentes tornamo-nos homogêneas.
